“Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.”

Fernando Pessoa

domingo, 16 de outubro de 2011

O eterno mistério



               Nascimento e morte. Dois pólos distintos, mas ligados entre si através de uma linha frágil chamada vida. Duas situações esperadas que podem se tornar inesperadas em segundos. Dois acontecimentos felizes e tristes, variando conforme o momento em que surge. Afinal, existem outros dois princípios complementares mais corriqueiros e naturais? O yin está para o yang tal como a vida está para a morte. Desde pequenas, as pessoas aprendem que o ser nasce, cresce, (nem sempre) reproduz e morre. A trajetória no papel é simples, mas a realidade vai além das etapas citadas.

            A união da alma com o corpo, o existir. Indago-me frequentemente quanto ao ponto de vista filosófico: como uma criatura consegue gerar outra? A magia que ocorre dentro da mulher transcende a genética, tenho certeza. Ser responsável por uma criação do mesmo sangue e preocupar-se com o outrem que acaba se tornando parte do criador são os verdadeiros primores. Se pudesse voltar ao tempo para reviver alguma experiência, escolheria meu nascimento. Ou melhor, reviver o último dia na barriga da minha mãe e o nascimento. Mesmo com a escuridão, diria que o útero é o lugar mais próximo da perfeição, se é que existe de fato. Aposto que é aconchegante, calmo e quente, além da sensação constante de amor e carinho. Imagino que sentir-se protegido 24 horas por dia não deve ter preço. Dizem que o bebê chora ao nascer por ter que encarar um mundo cheio de injustiça e tristeza, mas o tapinha do médico no bumbum não deve ser o gesto mais acolhedor para dar boas vindas.

            Brincadeiras à parte, você sabe qual é o termo da existência? O cessar da vida, o fim, a morte. Muitos não gostam de falar nem pensar sobre o assunto, mas o chavão é inevitável. Confesso que sinto certo embaraço ao retratar a morte, pois a palavra traz consigo uma carga negativa. Além disso, difícil é conjecturar sobre o desconhecido, pois nunca o viu, apenas sabe que existe. Engraçado, se a morte existe é porque tem vida. Ou seja, ela possui vida, mas tira a vida dos outros. Logo, quem tirará a vida da morte? Complexo, não? Fico muito triste ao pensar nos amigos que perdi para a mesma. Em um dia, uma vida cheia de energia; e no outro, uma morte imprevista. Só espero que ela saiba o que está fazendo, pois ferir os sentimentos alheios não tem explicação nem sentido. Já tentei fantasiar a face da morte, mas a influência televisiva é forte demais e idealizou aquele estereótipo de caveira, coberta por uma capa preta com capuz e foice na mão. Eu REALMENTE espero que ela não seja assustadora e sim tranquilizadora, pois se for para partir dessa para uma melhor, o mínimo de conforto e paz é obrigatório.

            No final das contas, vivemos em um mundo cheio de curiosidades e nem sempre possui uma resposta final, apenas hipóteses. Eu penso, tu pensas, ele pensa... E a certeza? Só tenho certeza de quem sou e olhe lá, porque o ser humano é uma metamorfose ambulante, vive em constante mudança. Ainda bem.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O melancólico não-saber


          Ele não sabe, mas ela não para de pensar nele. Desde o momento em que acorda até a hora de dormir. Hoje, por exemplo, enquanto cantarolava no banho, perguntou-se qual a música que ele mais gosta de cantar debaixo do chuveiro. Seria Nando Reis ou Maria Rita? Mais uma curiosidade que morrera com ela. Pobrezinha, mal desconfia que o Michael Jackson é o preferido.

            O que ela não sabe é que ele também pensa nela. Desde o momento em que acorda até a hora de dormir. Hoje, por exemplo, enquanto almoçava deliciosos sushis e sashimis, perguntou-se qual a comida que ela mais gosta de saborear. Seria mexicana ou italiana? Se curiosidade matasse, ele teria se engasgado com o tal peixe cru e batido as botas. Coitado, mal imagina que o simples arroz, feijão, bife e batata frita é o suficiente para deixá-la feliz. E com suco de melancia, por favor!

            Talvez não passe pela cabeça dele, mas toda vez em que ela o vê, sente vontade de abraçá-lo e beijá-lo. Ela se lembra daquele dia em que ficaram juntos – eu falei que eles já namoraram? – e faz uma rápida viagem ao passado. Que carinho gostoso ele faz... Que beijo romântico ele tem...

            Outra coisa que ela não fantasia: ele também sente vontade de abraçá-la e beijá-la toda vez em que está ao seu alcance. Ele se lembra daquele dia em que ficaram juntos – inesquecível para ambos – e faz uma breve volta ao tempo. Que cafuné adorável ela faz... Que toque suave e marcante ela tem...

            Notórios são os fatos em comum entre eles. Citei apenas alguns, pois se continuasse, teria de escrever um livro. Acho que daria um belo livro. Afinal, quem não conheceu ou conhece duas pessoas que se amam, mas não se declaram devido a receio ou vergonha? Uma pena, eu sei. O medo arranca a mísera ou evidente possibilidade de vencer, obter algo. O que podemos fazer para ajudar? Nada, além de aconselhá-los e rezar para que a timidez vá embora. Trabalho árduo, mas não impossível. Tenho esperanças que, um dia, ele fale para ela que a ama. Também tenho esperanças que ela seja paciente a ponto de esperar esse dia. Até lá, os dois vão criando coragem e se divertindo com os outros, porque ninguém é de ferro!


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Por onde andas, Príncipe Encantado?



         Começo o texto pretensiosamente com a seguinte afirmação: todo homem está destinado a uma princesa assim como toda mulher está destinada a um príncipe. Como vivemos em uma sociedade moderna, pode-se mudar o gênero, mas a essência continua a mesma. A pessoa pode não saber disso hoje, mas um dia, ou melhor, no dia, ela reconhecerá. Sabe como? Quando o coração disparar, não conseguir desviar o olhar e quiser ficar perto do ser iluminado. Um segredo: envelhecer ao lado do Príncipe é algo que me agrada e reconforta.

            Quando era criança, vivia me imaginando no lugar das princesas da Disney. Tá certo que na época, eu estava para Patinho Feio, mas me divertia no lugar da Ariel, Branca de Neve e Cinderela. Minha preferida? Jasmin, sem dúvidas, talvez por ser a única da pele morena e dos olhos escuros. Lembro que decorava as falas, contracenava em frente à televisão e na hora do beijo, fechava os olhos, pensava no menino que gostava e beijava a mão. Ó Príncipe Encantado, como és belo!

            Hoje em dia, percebo que algumas coisas não mudaram. Quando assisto a um filme, com cena romântica, imagino-me com “aquela pessoa”. Entro no filme, sem pedir licença ao diretor, trocos os protagonistas – saem os dois atores sem sal e sem açúcar para a minha entrada e do meu Príncipe – para repetir a cena. Modéstia à parte, mas nós mandamos bem. Fomos melhores que a dupla original. Uma confissão: como é gostoso saber que pode tudo enquanto viaja no pensamento!

            Às vezes, fico pensando, com muito medo, se eu já encontrei meu Príncipe e o deixei passar despercebido. Só sei que me arrepio ao ter que passar anos e anos atrás de alguém que sempre esteve perto de mim. Arrepio-me ainda mais se eu não encontrá-lo. Que tristeza. Como teria uma vã cheia de filhos sem meu Encantado? Se bem que, com a Internet, tudo ficou mais fácil. Só colocar a altura, cor dos olhos e pele desejada que aparecem centenas de perfis. Para quem gosta apenas de beleza e sexo, não terá dificuldades; agora, quem procura caráter ou o famoso “algo a mais”, terá que se esforçar mais um pouco.

            Tenho uma amiga que já achou seu Príncipe. Já meu outro amigo tem receio de se declarar para a Princesa e perder a amizade construída até o exato momento. Eu estou à procura, mas sempre atenta aos sinais do coração. Tenho certeza que o encontrarei mais cedo ou mais tarde. E você, já conheceu e reconheceu o seu?

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Uma singela homenagem ao meu pai


        Em frente ao espelho, após tirar a maquiagem, torço o nariz e chego a uma conclusão: eu REALMENTE pareço muito com meu pai. As pessoas mais próximas falam direto que sou a xerox dele, mas sempre discordei. “Imagina. Uma mulher se parecer com homem? De jeito nenhum”. Porém, hoje me olhei criticamente e sim, os olhos e o nariz são cópias perfeitas do Sr. Torres. Domingos Torres Miranda. Nome forte, personalidade ainda mais. Baiano da cara brava e do coração nobre. Não é homem de falar, mas de fazer.

            Ao voltar para o passado, a primeira lembrança que me vem à cabeça é maravilhosa, faz parte da infância. Vejo Seu Torres arrumando minha lancheira da Mônica e colocando o sanduíche de alface, queijo e presunto, cortado na diagonal e embrulhado no alumínio, que só ele sabe fazer. Ah, que saudade daquela época! Época em que tudo era perfeito e só eu não sabia: não tinha preocupações, todo dia era festa, a Eletropaulo era estatal... Por falar nisso, lembro de uma noite (ou madrugada?) em que eu e minha mãe estávamos dentro do carro da Eletropaulo, local onde meu pai trabalhava, com todos os pernilongos da cidade de São Paulo. Um deles se aproximou de mim, porém o matei na mesma hora ao dar um tapa no vidro. Detalhe, ele estava com sangue.

            Já a segunda lembrança não é das melhores. Teve um dia que o vizinho estava sendo roubado no momento em que chegava da natação com meu pai e primos. Como era criança, não desconfiei da rua fechada com dois carros. Entrei em casa com os primos e a empregada. Ué, cadê meu pai? Tocou a campainha, minutos depois, e pediu para que eu pegasse a chave do carro rapidamente e a jogasse para ele, sem me aproximar do portão. Anos mais tarde, fui descobrir que nesse momento, ele estava com uma arma apontada para a cabeça e que tinha pedido ao ladrão para que ficasse no muro, impedindo assim que sua filha visse a cena. Como você é corajoso, pai!

            Agora, cá entre nós, você tinha mesmo que torcer para esse time? Um dos nossos passatempos preferidos é cutucar o outro para falar mal dos times do coração. Cansei de rir e ficar brava aos finais de semana. A rivalidade aqui em casa não para depois do apito final, mas confesso que a situação é engraçada. Mais importante que isso, quero deixar bem claro que apesar de não demonstrar, minha admiração, amor, carinho e respeito pelo senhor é eterno e imensurável. Agradeço de coração tudo o que fez por mim. Se hoje sou uma pessoa educada, gentil e honesta com o próximo, devo isso a você. Sem dúvidas, tenho o melhor pai do mundo...

            Te amo! 


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Sorria: sua alma está sendo purificada

sor.rir (lat subriderevint vpr 1 Rir levemente, sem rumor, com ligeira contração dos músculos faciais. vtd vti 2 Dar, dirigir um sorriso. Vti 3 Ser favorável.

sor.ri.so (lat subrisusm 1 Ato de sorrir (-se). 2 Manifestação de um sentimento de benevolência, simpatia ou de ironia, que se faz sorrindo.




            Assim que termino de assistir ao comercial da Brastemp – O dia em que um sorriso parou São Paulo – sinto obter mais um insight para a coleção, que tem crescido constantemente ao longo dos momentos em que me pego conversando comigo mesma. Como o simples ato de sorrir consegue nos deixar mais leves em questão de segundos? A soma de 73 músculos resulta nesta linda e inspiradora expressão facial, capaz de conquistar a pessoa mais ranzinza na face da Terra.

            E como é grande o leque de variedades. Até ouso dizer que há um alfabeto dos sorrisos, que vai do A, de apaixonado, até o Z, de zombeteiro, passando pelo bonito, contagiante, dissimulado, espontâneo... Agora, na minha modéstia opinião, o sorriso que vem na hora errada consegue ser o pior. Seja na reunião de trabalho com o chefe ou no meio da explicação do professor, prender o sorriso acaba sendo mais perigoso que insultar alguém. Os olhos começam a lacrimejar e a barriga começa a se contorcer. Você envia uma mensagem rápida e desesperadora ao cérebro para não rir, mas parece que ele entende o contrário. Que brincadeira perigosa!

            Alguém pode me dizer se há algum remédio para aliviar nossa tensão melhor que o sorriso? Não consigo pensar em algo mais eficaz e simples. Aliás, eficaz, simples e gratuito! Experimente, durante um mês, reservar um tempo para sorrir. De preferência, assim que acordar, pois a energia alegre e contagiante te acompanha durante todo o dia. Lembre-se dos momentos engraçados que vivenciou ou daquela foto em que você está com uma careta medonha e enjoy it! Não custa nada. Depois me conte como foi, ok?

terça-feira, 28 de junho de 2011

Dança comigo?




             Sem sombra de dúvidas, dançar nunca foi meu ponto forte. Até o simples dois pra lá e dois pra cá consegue confundir meus reflexos. O cérebro envia uma mensagem para meu pé direito ir para frente, porém o esquerdo é mais rápido e toma à dianteira. Mas como todo brasileiro não desiste das coisas, resolvi me meter em um baile de samba rock. Mesmo tendo a dança do Braga Boys no auge da minha vida artística, achei legal a ideia de ver pessoalmente os passos elegantes e envolventes desse gênero musical.

            Ao chegar no local, fico abismada com o tamanho da fila. Tem, aproximadamente, trinta pessoas. Fora quem ainda está para chegar. Droga, mais gente para me ver pagando mico. Certo, o jeito é abrir aquele sorriso amarelo e, caso alguém pergunte, sou de outro país onde ninguém mexe o quadril para dançar.

            Assim que o portão abre, vou direto ao bar, peço uma caipirinha e já me encosto ao balcão para observar o salão. Casa lotada, música da melhor qualidade, birita fazendo efeito. Não custa nada arriscar alguns passos aqui. Só fechar os olhos e sentir a música dentro de mim.

            ♪ To namorando aquela mina, mas não sei se ela me namora
               Mina maneira do condomínio, lá do bairro onde eu moro ♪
           
            Quando abro os olhos, vejo uma mão estendida na minha frente, convidando-me para dançar.
            - Olha, não sei dançar muito bem viu...
            - Então deixa que eu te ensino.
            Ganhei na loteria. Quem diria que um moreno alto, lindo e simpático me puxaria para dançar? Ah, só esqueci um simples detalhe: EU NÃO SEI DANÇAR!
            - Três passos para um lado e três passos para o outro.
            - Ué, não eram dois?
            No final das contas, até que não me sai tão mal quanto esperava. Pisão no pé faz parte do negócio, senão perde toda a graça.

            De repente, a pista fica lotada. Sou obrigada a me aproximar mais do meu professor de dança. O ritmo da música fica mais lento e, em compensação, minha respiração fica mais forte e profunda. Estou tão próxima da boca dele que roubaria facilmente um beijo. Apenas alguns centímetros para o lado, mas me falta coragem. Então, com o Jorge Ben Jor sussurrando em nossos ouvidos, ouço algo como “não vejo a hora de te beijar”.

            - O quê?
            - Posso te beijar?

            Para tudo. Ele me pediu um beijo. Caramba, o que eu faço agora?

            - Ahhh, não sei viu...

            Idiota, por que respondeu assim?

            - Eu acho que mereço por te ensinar a dançar...

            Um belo sorriso surge em seus lábios assim que termina a frase. Quem resiste a isso? Nenhum dos dois força algo, simplesmente acontece. Impossível descrever seu beijo. Só sei que, quanto mais experimento, mais eu quero. Melhor comprar uma garrafinha de água para repor as energias...

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Os cinco sentidos


            Sou muito grata por ter meus cinco sentidos em perfeito estado: audição, olfato, paladar, tato e visão. Cada um deles tem sua importância, mas juntos se tornam uma dádiva. Gosto desse assunto porque cada pessoa possui uma percepção diferente dos sentidos, apesar deles serem os mesmos. Hoje, decidi compartilhar com você o que cada um deles provoca em mim.

            Começo falando da visão. Poder enxergar o sol, a lua, as estrelas, o arco-íris, a cor dos olhos do amado, o ídolo, o mar... Enfim, enxergar cada detalhe do que vejo (perceba que enxergar vai além do simples ver) me motiva cada dia. Só de pensar que ainda tem muitos lugares para conhecer e ver com meus próprios olhos é mais que estímulo para viver.

            Ao partir para a audição, acho magnífico poder dormir ouvindo os pingos da chuva batendo no telhado de casa como se fosse uma sinfonia infinita e perfeita. Isso me faz lembrar o compositor alemão Ludwig Von Beethoven, que começou a perder sua audição de forma gradual entre os 20 e 50 anos. Mesmo surdo, ele conseguiu criar novos arranjos apenas com o conhecimento que obtera na juventude. Viva o som! Viva os diferentes timbres! Encanta-me fechar os olhos e apenas prestar atenção em cada pequeno barulho do lugar em que estou, que vai desde o vento uivante até o “eu te amo” da pessoa especial.

            Já o olfato pode ser traiçoeiro! Inúmeras vezes pensei ter sentido o cheiro de bolo vindo da minha cozinha, mas quando ia checar, na verdade vinha da vizinha. Isso significa problema na certa porque a barriga já começa a revirar. O desfecho, todos sabem. E quantas vezes você brigou com seu pai ou irmão pelo “odor desagradável e desnecessário” que ele provocou e depois tudo acabou em risada? Sentir o perfume da pele ou cheiro da comida que só a mamãe consegue fazer é demais, não é?

            O paladar também tem suas vantagens como sentir o gosto da fruta preferida ou o doce do brigadeiro de panela. Aqui vale até a pipoca doce misturada com a salgada. Cada gostinho único que fica guardado na memória. Nunca vou esquecer o pavor que sentia ao falar de melão sem nem ter provado. Hoje em dia, não volto do supermercado sem comprar o amarelinho.

            Agora, aqui entre nós, confesso que o tato é o sentido que mais me fascina. Sentir o beijo daquele que você tanto sonha, o arrepio com o vento gelado, o molhado da terra, o gelo queimando a pele... Sensações inexplicáveis. Tem que sentir para entender.

            A junção de todos os sentidos é o que chamo de sentimento único. Acordar bem cedo, lavar o rosto com água fria e depois ver o sol nascer tem um significado diferente entre os indivíduos. Você pode estar apenas observando as tonalidades das cores no céu enquanto eu me lembro do dia em que estava na praia com o meu amor sentindo os primeiros raios de sol nos dar bom dia.

            Escrevi este texto com a esperança que você curta cada segundo dos seus sentidos. Em uma parte da vida, esses cinco senhores podem não ter o mesmo rendimento que tinham antes, mas pelo menos você se lembrará daquela vez em que viu toda a família reunida, ouviu o choro do seu filho pela primeira vez, sentiu o perfume incrível que tem a rosa vermelha, o gosto da neve caindo do céu diretamente para sua boca ou quando correu para abraçar sua mãe assim que ela te deu o primeiro bichinho de estimação.

O doce beijo de um sonho



     Olho no relógio. Meia noite em ponto. Levanto a cabeça pensando no que falo para você enquanto vem de encontro a mim. Estou no final do corredor, encostada na parede, totalmente sem graça. Que audácia a minha! Chamo o cara mais interessante do trabalho para conversar, mas sobre o que? O clima do tempo? A nova chefe? Amores impossíveis?

     Leandro, o casado mais cobiçado entre as estagiárias e a presidência. Seu olhar chega ser hipnotizante. Castanho como avelã, parece mergulhar nas pessoas como se soubesse que elas carregam algum segredo e o querer revelar. O cabelo desajeitado dá um contraste no visual elegante e sexy ao mesmo tempo. Sua boca, um verdadeiro convite para provar o mais divino néctar dos deuses.

            - Oi Nathalia. Pontual como sempre, hein...
            - Fiquei com medo de deixá-lo esperando.
            - Por você, eu não me importaria.

            Jogo baixo Leandro. Assim você me mata...

            - Mas vamos direto ao assunto: o que você queria falar comigo?
       - Então Leandro, nós nos aproximamos demais nesses últimos meses. Pude conhecer a pessoa maravilhosa que é e acho que acabei confundindo um pouco as coisas...
            - Confundindo as coisas? Como assim?

            Ele só pode estar de brincadeira...

         - Pois é... Passei a te olhar não apenas como um companheiro de trabalho, e sim como alguém atraente, alguém que possa estar do meu lado em todas as horas...

            Um sorriso cabisbaixo escapa de sua boca. O que será que passa pela cabeça dele nesse exato momento?

            - Nathy, sou um homem casado, sabe disso...
          - Eu sei. Meu lado racional diz para eu desistir de você, mas meu lado emocional diz para continuar... Às vezes, você dá a impressão que também quer algo comigo. Pode ser sincero, afinal, é só uma conversa para esclarecer as coisas entre nós.

     Seu rosto escultural aparenta estar corado. Ou será meu subconsciente?

         - E se eu estiver interessado, como faríamos? Trabalhamos no mesmo local, temos amigos em comum... Muitos fatores nos atrapalhariam...

            Assim que termina de falar, seus olhos amendoados parecem me chamar. Como resistir a isso?

        Então, como uma fênix, a coragem parece renascer do fundo do meu âmago. Coloco meu dedo indicador em cima de seus lábios, impedindo-o de falar qualquer coisa para estragar aquele momento. Olho dentro de seus olhos, implorando para que ele me perdoe nos próximos segundos. Parece que há um imã entre nós, exercendo uma força invisível e sutil, empurrando-nos um para o outro. E qual será o próximo passo?

            Sinto o calor de seus lábios tocando os meus. O beijo mais fulminante de todos, capaz de amolecer qualquer pedra. E que boca macia ele tem... Sinto minhas pernas bambas. Aposto que nem os raios de sol são tão envolventes como seus braços fortes e mãos inquietas. Não tenho coragem de sair daqui. Porém, algo estranho acontece. No meio do melhor beijo, ele para, olha para mim e diz:

            - “É só isso, não tem mais jeito, acabou, boa sorte...”

            Fico paralisada.

            - Não estou entendendo nada!

            Ele continua a cantar enquanto sua imagem fica mais longe e distante de mim:
            - “Não tenho o que dizer, são só palavras, e o que eu sinto não mudará...”

          Abro meus olhos sonolentos e vejo o despertador do celular tocar desesperado na voz da Vanessa da Mata. Já são seis horas da manhã e eu ainda estou deitada. Não acredito que sonhei com o Leandro. O melhor sonho de todos, sem dúvida. Bom, deixa eu criar coragem para levantar, pois hoje o dia será longo...

terça-feira, 21 de junho de 2011

A temida hora do "Parabéns"


     Olhos vendados nunca me agradaram. A sensação de insegurança me domina completamente enquanto tento me acalmar. Sinto que estou vulnerável a tudo e a todos. Preciso relaxar, afinal minha amiga não teria coragem de fazer mal a mim.

            - Chegamos Cris. Está preparada?
            - Acho que sim.
            - No três então. Um... Dois... Três...

            Certo, melhor abrir os olhos bem devagar para o susto não ser tão forte.

            - S-U-R-P-R-E-S-AAAAAAAAA!
            - Não acredito.

            Tá para existir algo mais constrangedor que festa surpresa! Não acredito que isto está acontecendo comigo. Ai, melhor eu pegar uma água para a ficha cair.

            Gente, olha minha prima de Ribeirão Preto... E a galera da faculdade... Nossa, tenho que admitir, vale à pena enfrentar isso para rever os amigos. Quer saber, se está na chuva é pra se molhar.

            - Hey... Não acredito que você veio de tão longe Juh.
            - E você acha que ia perder a festa surpresa da minha prima linda? Bora dançar?
            - Mas é claro...

            ♪ Want you to make me feel
                Like I'm the only girl in the world
                Like I'm the only one that you'll ever love
                Like I'm the only one who knows your heart
                Only one.

            - Oi gente, tudo bem? Para aqueles que não me conhecem, sou o Daniel, um dos organizadores da festa. Queiram me desculpar por parar a música, mas a hora mais esperada da festa chegou...

            Eu realmente espero que ele não me chame para cantar parabéns agora.

            - Cris, venha até aqui. Chegou a hora de apagar as velinhas.

            Caramba, não tem como escapar dessa parte? Nunca gostei de cantar parabéns. Todos cantam enquanto você fica sem reação. Que droga!
           
            ♪ Parabéns pra você
                Nessa data querida
                Muitas felicidades
                Muitos anos de vida... ♪

            Respira fundo Cris, estou contigo... Lógico que está comigo, eu sou você! Tá, eu olho pra quem agora? Tia Valquíria?

            ♪ É pique, é pique
                É pique, é pique, é pique ♪

            Ai meu Deus, e o eu falo depois que terminar? Como não pensei nisso?

            ♪ Rá – tim – bum!
                Cristine, Cristine, Cristine ♪

            O sorriso desajeitado escapa mesmo eu tentando prendê-lo.
           
            - DISCURSO! DISCURSO! DISCURSO!

            Como vocês podem fazer isso comigo??? Sabem que não gosto de falar em público.

            - Só vocês mesmo... Obrigada pela surpresa. Apesar de não gostar muito de festas de aniversário, foi muito bom rever os amigos, os familiares... Aliás, quem deveria receber parabéns no meu lugar é minha mãe. Dona Glória, parabéns por me aguentar oito meses na sua barriga. Parabéns pela paciência que teve ao me mostrar o que é certo e o que é errado. Parabéns pelo esforço que você fez para me colocar nas melhores escolas. Parabéns por sempre ter algo a me ensinar. Parabéns por ser essa mulher guerreira... Te amo! Agora chega de discurso. Vamos curtir a festa que está boa demais... DJ, aumenta o som que a noite é uma criança!

            ♪ Oh-oh-oh-oh-oooh! 
                Oh-oh-oooh-oh-oh! 
                Caught in a bad romance

            Parabéns Cris, até que você não foi tão mal assim...