“Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.”

Fernando Pessoa

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Uma singela homenagem ao meu pai


        Em frente ao espelho, após tirar a maquiagem, torço o nariz e chego a uma conclusão: eu REALMENTE pareço muito com meu pai. As pessoas mais próximas falam direto que sou a xerox dele, mas sempre discordei. “Imagina. Uma mulher se parecer com homem? De jeito nenhum”. Porém, hoje me olhei criticamente e sim, os olhos e o nariz são cópias perfeitas do Sr. Torres. Domingos Torres Miranda. Nome forte, personalidade ainda mais. Baiano da cara brava e do coração nobre. Não é homem de falar, mas de fazer.

            Ao voltar para o passado, a primeira lembrança que me vem à cabeça é maravilhosa, faz parte da infância. Vejo Seu Torres arrumando minha lancheira da Mônica e colocando o sanduíche de alface, queijo e presunto, cortado na diagonal e embrulhado no alumínio, que só ele sabe fazer. Ah, que saudade daquela época! Época em que tudo era perfeito e só eu não sabia: não tinha preocupações, todo dia era festa, a Eletropaulo era estatal... Por falar nisso, lembro de uma noite (ou madrugada?) em que eu e minha mãe estávamos dentro do carro da Eletropaulo, local onde meu pai trabalhava, com todos os pernilongos da cidade de São Paulo. Um deles se aproximou de mim, porém o matei na mesma hora ao dar um tapa no vidro. Detalhe, ele estava com sangue.

            Já a segunda lembrança não é das melhores. Teve um dia que o vizinho estava sendo roubado no momento em que chegava da natação com meu pai e primos. Como era criança, não desconfiei da rua fechada com dois carros. Entrei em casa com os primos e a empregada. Ué, cadê meu pai? Tocou a campainha, minutos depois, e pediu para que eu pegasse a chave do carro rapidamente e a jogasse para ele, sem me aproximar do portão. Anos mais tarde, fui descobrir que nesse momento, ele estava com uma arma apontada para a cabeça e que tinha pedido ao ladrão para que ficasse no muro, impedindo assim que sua filha visse a cena. Como você é corajoso, pai!

            Agora, cá entre nós, você tinha mesmo que torcer para esse time? Um dos nossos passatempos preferidos é cutucar o outro para falar mal dos times do coração. Cansei de rir e ficar brava aos finais de semana. A rivalidade aqui em casa não para depois do apito final, mas confesso que a situação é engraçada. Mais importante que isso, quero deixar bem claro que apesar de não demonstrar, minha admiração, amor, carinho e respeito pelo senhor é eterno e imensurável. Agradeço de coração tudo o que fez por mim. Se hoje sou uma pessoa educada, gentil e honesta com o próximo, devo isso a você. Sem dúvidas, tenho o melhor pai do mundo...

            Te amo! 


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