Olho no relógio. Meia noite em ponto. Levanto a cabeça pensando no que falo para você enquanto vem de encontro a mim. Estou no final do corredor, encostada na parede, totalmente sem graça. Que audácia a minha! Chamo o cara mais interessante do trabalho para conversar, mas sobre o que? O clima do tempo? A nova chefe? Amores impossíveis?
Leandro, o casado mais cobiçado entre as estagiárias e a presidência. Seu olhar chega ser hipnotizante. Castanho como avelã, parece mergulhar nas pessoas como se soubesse que elas carregam algum segredo e o querer revelar. O cabelo desajeitado dá um contraste no visual elegante e sexy ao mesmo tempo. Sua boca, um verdadeiro convite para provar o mais divino néctar dos deuses.
- Oi Nathalia. Pontual como sempre, hein...
- Fiquei com medo de deixá-lo esperando.
- Por você, eu não me importaria.
Jogo baixo Leandro. Assim você me mata...
- Mas vamos direto ao assunto: o que você queria falar comigo?
- Então Leandro, nós nos aproximamos demais nesses últimos meses. Pude conhecer a pessoa maravilhosa que é e acho que acabei confundindo um pouco as coisas...
- Confundindo as coisas? Como assim?
Ele só pode estar de brincadeira...
- Pois é... Passei a te olhar não apenas como um companheiro de trabalho, e sim como alguém atraente, alguém que possa estar do meu lado em todas as horas...
Um sorriso cabisbaixo escapa de sua boca. O que será que passa pela cabeça dele nesse exato momento?
- Nathy, sou um homem casado, sabe disso...
- Eu sei. Meu lado racional diz para eu desistir de você, mas meu lado emocional diz para continuar... Às vezes, você dá a impressão que também quer algo comigo. Pode ser sincero, afinal, é só uma conversa para esclarecer as coisas entre nós.
Seu rosto escultural aparenta estar corado. Ou será meu subconsciente?
- E se eu estiver interessado, como faríamos? Trabalhamos no mesmo local, temos amigos em comum... Muitos fatores nos atrapalhariam...
Assim que termina de falar, seus olhos amendoados parecem me chamar. Como resistir a isso?
Então, como uma fênix, a coragem parece renascer do fundo do meu âmago. Coloco meu dedo indicador em cima de seus lábios, impedindo-o de falar qualquer coisa para estragar aquele momento. Olho dentro de seus olhos, implorando para que ele me perdoe nos próximos segundos. Parece que há um imã entre nós, exercendo uma força invisível e sutil, empurrando-nos um para o outro. E qual será o próximo passo?
Sinto o calor de seus lábios tocando os meus. O beijo mais fulminante de todos, capaz de amolecer qualquer pedra. E que boca macia ele tem... Sinto minhas pernas bambas. Aposto que nem os raios de sol são tão envolventes como seus braços fortes e mãos inquietas. Não tenho coragem de sair daqui. Porém, algo estranho acontece. No meio do melhor beijo, ele para, olha para mim e diz:
- “É só isso, não tem mais jeito, acabou, boa sorte...”
Fico paralisada.
- Não estou entendendo nada!
Ele continua a cantar enquanto sua imagem fica mais longe e distante de mim:
- “Não tenho o que dizer, são só palavras, e o que eu sinto não mudará...”
Abro meus olhos sonolentos e vejo o despertador do celular tocar desesperado na voz da Vanessa da Mata. Já são seis horas da manhã e eu ainda estou deitada. Não acredito que sonhei com o Leandro. O melhor sonho de todos, sem dúvida. Bom, deixa eu criar coragem para levantar, pois hoje o dia será longo...

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