“Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.”

Fernando Pessoa

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O melancólico não-saber


          Ele não sabe, mas ela não para de pensar nele. Desde o momento em que acorda até a hora de dormir. Hoje, por exemplo, enquanto cantarolava no banho, perguntou-se qual a música que ele mais gosta de cantar debaixo do chuveiro. Seria Nando Reis ou Maria Rita? Mais uma curiosidade que morrera com ela. Pobrezinha, mal desconfia que o Michael Jackson é o preferido.

            O que ela não sabe é que ele também pensa nela. Desde o momento em que acorda até a hora de dormir. Hoje, por exemplo, enquanto almoçava deliciosos sushis e sashimis, perguntou-se qual a comida que ela mais gosta de saborear. Seria mexicana ou italiana? Se curiosidade matasse, ele teria se engasgado com o tal peixe cru e batido as botas. Coitado, mal imagina que o simples arroz, feijão, bife e batata frita é o suficiente para deixá-la feliz. E com suco de melancia, por favor!

            Talvez não passe pela cabeça dele, mas toda vez em que ela o vê, sente vontade de abraçá-lo e beijá-lo. Ela se lembra daquele dia em que ficaram juntos – eu falei que eles já namoraram? – e faz uma rápida viagem ao passado. Que carinho gostoso ele faz... Que beijo romântico ele tem...

            Outra coisa que ela não fantasia: ele também sente vontade de abraçá-la e beijá-la toda vez em que está ao seu alcance. Ele se lembra daquele dia em que ficaram juntos – inesquecível para ambos – e faz uma breve volta ao tempo. Que cafuné adorável ela faz... Que toque suave e marcante ela tem...

            Notórios são os fatos em comum entre eles. Citei apenas alguns, pois se continuasse, teria de escrever um livro. Acho que daria um belo livro. Afinal, quem não conheceu ou conhece duas pessoas que se amam, mas não se declaram devido a receio ou vergonha? Uma pena, eu sei. O medo arranca a mísera ou evidente possibilidade de vencer, obter algo. O que podemos fazer para ajudar? Nada, além de aconselhá-los e rezar para que a timidez vá embora. Trabalho árduo, mas não impossível. Tenho esperanças que, um dia, ele fale para ela que a ama. Também tenho esperanças que ela seja paciente a ponto de esperar esse dia. Até lá, os dois vão criando coragem e se divertindo com os outros, porque ninguém é de ferro!